• qua. set 9th, 2026

Planos de saúde ficam mais caros e pressão sobre consumidores cresce no Brasil

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Com 53 milhões de beneficiários, saúde suplementar enfrenta debate sobre reajustes, redução da oferta de planos individuais e aumento da procura pela Justiça para garantir tratamentos

Cerca de 53 milhões de brasileiros possuem plano de saúde, mas o crescimento dos preços e as dificuldades para obter determinados atendimentos têm ampliado a preocupação dos consumidores. No centro da discussão está uma diferença regulatória que afeta diretamente o valor pago pelas famílias: nem todos os contratos estão sujeitos ao mesmo limite de reajuste.

Desde 2000, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estabelece anualmente um percentual máximo para o reajuste dos planos individuais e familiares. Em 2026, o índice foi definido em 5,11%. A regra, entretanto, não se aplica da mesma forma aos planos coletivos empresariais e por adesão.

Esses contratos abrangem trabalhadores que recebem o benefício por meio da empresa, pessoas que contratam planos utilizando CNPJ e consumidores vinculados a entidades profissionais ou associações. Nesses casos, os reajustes são definidos na relação entre operadora e contratante, sem o mesmo teto estabelecido para os planos individuais.

No início deste ano, os aumentos dos planos coletivos chegaram, em média, a 9,9%. Nos contratos empresariais com até 29 beneficiários, a média alcançou 13,48%.

Diferença aumenta no longo prazo

Quando os reajustes são observados durante vários anos, a distância entre as modalidades torna-se ainda mais evidente.

Em cinco anos, os planos individuais acumularam reajuste de 35,41%, enquanto os contratos coletivos empresariais com até 29 vidas registraram alta acumulada de 82,36%, mais do que o dobro.

Além desses aumentos, determinados beneficiários também podem enfrentar reajustes relacionados à mudança de faixa etária, conforme as regras aplicáveis a cada contrato.

A diferença regulatória ajuda a explicar outra transformação do mercado: a redução da presença dos planos individuais. Atualmente, cerca de 7,7 milhões de pessoas permanecem nessa modalidade.

Com menos alternativas individuais disponíveis, algumas famílias recorrem à contratação empresarial por meio de CNPJ. O problema é que pequenos grupos não possuem necessariamente o mesmo poder de negociação de grandes empresas, embora estejam submetidos às regras dos contratos coletivos.

Judicialização acompanha reclamações sobre atendimento

O preço não é a única preocupação. Consumidores também recorrem cada vez mais ao Judiciário em disputas envolvendo cobertura assistencial.

Dados apresentados pela própria ANS indicam que 62% dos gastos das operadoras relacionados a processos judiciais correspondem a tratamentos que já faziam parte da cobertura obrigatória.

Ao mesmo tempo, o setor de saúde suplementar registrou lucro de R$ 24,4 bilhões em 2025, resultado que amplia o debate sobre a relação entre sustentabilidade econômica das empresas, preços cobrados e qualidade do atendimento entregue aos beneficiários.

Saúde suplementar entra no debate eleitoral

Apesar da dimensão do setor, propostas específicas para controlar reajustes dos planos coletivos aparecem de forma limitada nos programas apresentados pelos principais nomes da disputa presidencial mencionados no levantamento.

Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) concentram suas propostas de saúde principalmente no sistema público, sem apresentar medidas específicas para os reajustes da saúde suplementar. Renan Santos (Missão) menciona os planos ao abordar a parcela da população que não possui cobertura privada.

Romeu Zema (Novo), por sua vez, apresenta uma proposta diretamente relacionada ao setor. O programa defende mudanças no marco regulatório da ANS e a possibilidade de produtos com cobertura inferior ao atual rol obrigatório.

A ideia parte do princípio de que planos com menos serviços poderiam ter preços menores. A proposta, contudo, desperta resistência de entidades de defesa do consumidor, que argumentam que a flexibilização pode resultar na redução de direitos e na criação de produtos com cobertura insuficiente.

O debate não é novo. Modelos de planos com cobertura reduzida já foram discutidos anteriormente e enfrentaram críticas por causa do risco de segmentação do atendimento e transferência de despesas para os próprios pacientes ou para o SUS.

Com milhões de brasileiros dependentes da saúde suplementar, a discussão vai além do valor das mensalidades. O desafio passa por encontrar um equilíbrio entre preços acessíveis, sustentabilidade das operadoras, segurança jurídica e garantia de atendimento adequado.

Para os consumidores, o cenário reforça a importância de regras capazes de garantir maior previsibilidade nos reajustes, transparência nos contratos e acesso efetivo aos procedimentos previstos na cobertura, preservando a qualidade da assistência prestada aos milhões de brasileiros que mantêm planos de saúde.